Gaza, a traição dos sábios

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Mezri Haddad é escritor e filósofo tunisiano. Membro de Centre de Recherche sur la Pensée Antique (do CNRS – Centre National de Recherche Sociale) e do Centre d'Histoire des Sciences et des Philosophies Arabes et Médievales (CNRS). Publicado no Le Monde.
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Bem mais que o espetáculo trágico das crianças retalhadas e as famílias dizimadas, o que é incompreensível e insuportável é o mutismo, na França, dos arcanjos da liberdade e dos direitos do homem.
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Foram vistos mobilizando-se pelos chechenos ou pelos bósnios – o que é bem honroso –, mas por que se calam sobre o massacre diário de populações civis palestinas? Porque não denunciam, com o mesmo ardor humanista e a mesma tomada de consciência, os atos criminosos do exército israelense em Gaza?
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As centenas de mortos, na maior parte dos civis, e os milhares de feridos são seres inferiores ou não pertencem a esta humanidade tão cara aos universalistas, de modo que a campanha de punição coletiva da qual são hoje vítimas seja tratada com tanta indiferença? E, mais graves que esse omertà, são os propósitos escandalosos de alguns fariseus que estabelecem uma responsabilidade simétrica dos culpados e das vítimas, dos que matam e dos que morrem às centenas.
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Este que faz essas perguntas não é prosélito das causas integralistas, nem um zelote do ativismo terrorista, nem um miserável consumidor do veneno anti-semita.
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Contra estas três necroses mortais que corroem alguns de meus correligionários e que são tão contrárias ao Islã, bati-me ssumindo riscos. Sempre que as circunstâncias exigiram-no, não hesitei a repreender os meus, em nome do que tomava por valores universais, em nome de uma coexistência pacífica entre israelenses e palestinos, em nome de uma confraternização entre judeus e muçulmanos. Denunciei a impostura democrática que levou o Hamas à cabeça de Gaza. Temia pelo já agonizante processo de paz, temia o choque das civilizações, apreendia-me o totalitarismo teocrático que os habitantes de Gaza deviam suportar, isolando-os do resto do mundo.
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O Hamas não teve o tempo de transformar Gaza em inferno. Israel e Egito, com a cumplicidade ativa dos Estados Unidos, precipitaram este desastroso destino. Durante dois longos anos, como os iraquianos antes da queda de Saddam Hussein, 1,5 milhão de palestinos foram postos em quarentena. Gaza tornou-se “uma prisão a céu aberto”, reconhecia Stéphane Hessel.
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Nenhuma possibilidade foi dada aos líderes do Hamas de negociar com “o inimigo” que o tinha outrora e há pouco sustentado contra o Fatah, a exemplo da administração americana no seu apoio à Bin Laden contra a URSS! À época, os estrategistas de Israel e “os terroristas” do Hamas propunham-se assim bem para isolar Yasser Arafat, humilhá-lo e despojá-lo dos atributos do poder! Os atentados suicidas do Hamas tinham pagamento. Israel assim reforçou a legitimidade martirológica do Hamas quebrando a legitimidade histórica de Arafat, duplo fiasco que conduziu à apoteose eleitoral da organização islamista. E Israel continuou com o herdeiro sem herança em que se tornou Mahmoud Abbas.
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O único compromisso que Israel, sob a insistência do Egito, terminou por conceder, foi a assinatura da trégua de seis meses com o Hamas, em contrapartida de um levantamento muito controlado do bloqueio [militar à faixa de Gaza]. Mesmo em doses homeopáticas, o bloqueio nunca foi suspenso. Muito menos para apressar o fim do calvário dos habitantes de Gaza que para manter a sua imagem de protetores da viúva e do órfão e de resistentes inflexíveis à “entidade sionista”, os maximalistas do Hamas terminaram por cometer o irreparável: a ruptura da trégua em 18 de dezembro.
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É esta uma razão suficiente para Israel lançar-se nesta impiedosa guerra punitiva contra qualquer população tomada por refém pelos seus próprios líderes? Sabe-se o que vale a vida de um homem ou uma criança na ideologia sacrificial do Hamas. Mas como os líderes israelenses podem considerar a vida dessas crianças com o mesmo desdém?
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De acordo com Montesquieu, “o direito das gentes é fundado naturalmente no princípio de que as diversas nações devem fazer-se, na paz, o maior número de bem, e, na guerra, o menos de mal que é possível”. Em tempos de paz, Israel impôs à população de Gaza um bloqueio cruel e desumano; em tempos de guerra, o potente exército desse país não hesita em matar cinquenta civis para atingir um combatente do Hamas. Em outros termos, eliminar os combatentes do Hamas pelo que fazem, e matar os habitantes de Gaza pelo que são. É isso, a equidade e a moralidade?
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Sem desgostar a André Glucksmann, efetivamente houve desproporção entre o erro cometido e a punição infligida. Alinhar uma força militar das mais sofisticados e massacrar em doze dias mais de setecentos palestinos porque o Hamas lançou alguns mísseis caseiros que fizeram quatro feridos e alguns estragos materiais, isso chama-se efetivamente desproporção e desmedida. A hybris (desmedida) é filha de Némesis (vingança), e “a desmedida, amadurecendo, produz o fruto do erro e a colheita que produz é feita apenas de lágrimas”, escreveu Ésquilo.
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Nada pode justificar tal desencadeamento que deixa atrás de si somente ruínas, desolação, ódio e candidatos aos suicídios. Nem as razões vilmente eleitoreiras em Israel nem as operações vagamente táticas para testar a descontinuidade eventual ou a continuidade provável da futura administração americana na sua gestão do conflito israelopalestino. Quanto à lenda do pequeno Davi contra o maldoso Golias, é obsoleta e anacrônica. Porque ainda que vários inocentes civis tenham sido atingidos pelos abomináveis atentados suicidas, há muito tempo que a segurança do Israel não é mais ameaçada. Et pour cause, em termos de potência militar e de dissuasão nuclear, Israel pode riscar do mapa quem quiser e quando quiser.
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Não é gostar do Israel não lhe “esbofetear o imprudente patriotismo”, como dizia Zola. Gostar do Israel é, a exemplo de Hannah Arendt ontem, de Tzvetan Todorov, de Gideon Levy e tanto intelectuais israelenses de hoje, “dizer-lhe a verdade, ainda que isso lhe custe. Sobretudo se isso lhe custa”, como dizia Hubert Beuve-Méry, fundador e diretor do Monde.
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Gostar desse Estado nascido após o inexprimível Holocausto é pô-lo em guarda da embriaguez da potência e da impunidade. “Israel sempre ganhou as guerras e perdeu a paz”, dizia o ilustre Raymond Aron. Não se enganou: com aquele que lhe assegurou tantas guerras, Itzhak Rabin, Israel precisava ganhar a paz. Assassinaram-no e, com o seu desaparecimento, a esperança de uma paz duradoura evaporou-se. Mas cedo ou tarde, quando as armas se calarem e cessar o derrame do sangue dos palestinos, com ou contra a vontade de Deus, o destino do povo hebreu cruzará de novo a vontade de um profeta.
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Médicos falam sobre o uso de um "novo tipo de arma” em Gaza

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Publico abaixo a tradução de uma reportagem do jornalista Al-Arish, publicada no Le Monde de 12.01.2008. A limpeza étnica pretendida pelo Estado de Israel no Gueto de Gaza faz uso de um novo tipo de armas, a cujas vítimas o socorro médico é impotente.
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Feridos de um tipo novo – adultos e crianças cujas pernas não são mais do que caroços queimados e sangrentos – foram mostrados nesses últimos dias pelas televisões árabes que transmitem de Gaza. Domingo, 11 de Janeiro, foram dois médicos noruegueses, únicos ocidentais presentes no hospital da cidade, que deram testemunharam disso.
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Os doutores Mads Gilbert e Erik Fossa, que intervêm na região há vinte anos com a organização não governamental (ONG) norueguesa Norwac, puderam sair do território na véspera, com quinze feridos graves, pela fronteira com o Egipto. Não sem últimos obstáculos: “Há três dias, o nosso comboio, apesar de conduzido pelo Comitê Internacional da Cruz Vermelha, teve que dar meia volta antes de chegar à Khan Younès, onde tanques atiraram para parar-nos”, dizem aos jornalistas presentes à Al-Arish.
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Dois dias mais tarde, o comboio passou, mas os médicos, mesmo com o embaixador da Noruega vindo acolhê-los, foram bloqueados toda a noite “por razões burocráticas” dentro do terminal transfronteiriço egípcio de Rafah, entreaberto apenas para missões sanitárias. Nesta noite, vidraças e um teto do terminal foram quebrados pela pressão de uma das bombas jogadas na proximidade.
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“A 2 metros, o corpo é cortado em dois; a 8 metros, as pernas são cortadas, queimadas”
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“No hospital Al-Chifa, de Gaza, não vimos queimaduras por fósforo, nem feridos por bombas à sub-munições. Mas vimos vítimas do que temos todas as razão para pensar ser um novo tipo de arma, experimentado pelos militares americanos, conhecido sob o acrônimo DIME – para Dense Inert Metal Explosive", declararam os médicos.
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Pequenas bolas de carbono que contêm uma mistura de tungstênio, de cobalto, de níquel ou de ferro, têm um enorme poder de explosão, mas que se dissipa à 10 metros. “A dois metros, o corpo é cortados em dois; à oito metros, as pernas são cortadas, queimadas como por milhares de picaduras de agulhas. Não vimos os corpos dissecados, mas vimos muitos amputados. Houve casos semelhantes no Sul do Líbano em 2006 e vimos em Gaza no mesmo ano, durante a operação israelense Chuva de verão. Experiências sobre ratos mostraram que estas partículas que permanecem no corpo são cancerígenas ", explicaram.
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Um médico palestino, interrogado domingo por Al-Jazira, falou da sua impotência nesses casos: “Não têm nenhum vestígio de metal no corpo, mas hemorragias internas estranhas. Uma matéria queima seus vasos e provoca a morte, não podemos fazer nada”. De acordo com a primeira equipe médica árabe autorizada a entrar no território, que chegou sexta-feira pelo Sul ao hospital de Khan Younès, este acolheu “dezenas” de casos desse tipo.
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Os médicos noruegueses se sentiram se obrigados, dizem eles, a testemunhar o que viram, na ausência em Gaza de qualquer outro representante “do mundo ocidental” – médico ou jornalista: “É possível que esta guerra seja o laboratório dos fabricantes de morte? Pode-se que século XXI possa-se enclausurar 1,5 milhão de pessoas e fazer qualquer coisa que se queira chamando-as de terroristas?”
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Chegados no quarto dia da guerra ao hospital Al-Chifa, que conheceram antes e após do bloqueio, encontraram uma construção e equipamento “no fim da vida útil”, um pessoal já esgotado, morrendo por toda a parte. O material eles prepararam ficou bloqueado na passagem de Erez.
“Quando cinquenta feridos chegam de uma veze às urgências, o melhor hospital de Oslo estaria mal”, dizem eles. “Aqui, as bombas podiam cair dez por minutos. Vidraças do hospital foram pressionadas pela destruição da mesquita vizinha. Quando de certas alertas, o pessoal deve refugiar-se nos corredores. A sua coragem é incrível. Podem dormir duas a três horas por dia. A maior parte tem vítimas entre os seus parentes, ouvem na rádio interna a ladainha dos novos lugares atacados, às vezes onde se encontra a sua família, mas deve permanecer trabalhando… Na manhã da nossa partida, chegando na urgência, perguntei como se tinha passado a noite. Uma enfermeira sorriu. E seguidamente derreteu em lágrimas”.
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Nesse momento de sua narrativa, a voz do doutor Gilbert vacila: “Vê”, retoma sorrindo calmamente, “eu também…”
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Novas manifestações contra o massacre em Gaza

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Ontem, dia 11/01, mais uma vez se ouviu a voz de centenas de milhares ao redor do globo. Apesar da completa passividade com que os Estados de todo o mundo observam contemplativamente o massacre e a limpeza étnica em Gaza, os povos de todos os continentes estão manifestando-se em solidariedade ao povo palestino e contra o terrorismo de Estado israelense. Por uma terra sem amos! Por uma Palestina multiétnica, sem Estados! Todos os Estados são assassinos! Em Fortaleza, nos manifestaremos na quarta-feira, dia 14.
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Espanha
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Indonésia
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Bélgica
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Suíça
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Alemanha

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Líbano
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Fortaleza, dia 14: fim ao massacre em Gaza!

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Nota para a manifestação na Quarta-feira, dia 14/01, às 16 horas na Praça do Ferreira, no centro de Fortaleza
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Desde 27 de dezembro, o Estado de Israel realiza de forma covarde um impiedoso massacre da população palestina da Faixa de Gaza. A agressão militar começou com pesados bombardeios seguidos por uma ocupação por terra que já mataram mais de 800 palestinos e deixaram mais de 3000 feridos, incluindo grande número de crianças, mulheres e idosos.

Com argumentos cínicos e mentirosos, o Estado de Israel e os grandes meios de comunicação tentam justificar mais essa carnificina. Dizem que o objetivo da ofensiva é “combater os terroristas do Hamas” e que seu exército “está fazendo todo o possível para poupar a vida de civis”. Então por que a grande maioria dos mortos e feridos é de civis desarmados e indefesos? Seriam terroristas as quase 300 crianças palestinas mortas até agora pelo exército de Israel? E como devem ser chamados os soldados israelenses que apertam o gatilho e jogam as bombas?

Israel não apenas mata, mas mata de forma indiscriminada e covarde. Os primeiros bombardeios do dia 27 despejaram nada menos que 100 toneladas de bombas numa região que possui uma das maiores densidades populacionais do planeta, com 1,5 milhão de habitantes (49,1% são crianças). Foi um ataque surpresa que não deu chance para as pessoas se protegerem: num mesmo dia, 145 morreram e outras 300 ficaram feridas, incluindo crianças que voltavam da escola.

O exército de Israel é um dos mais bem treinados e equipados do mundo, e se acha no direito de matar com impunidade. Destruiu um hospital infantil, mesquitas, escolas, mercados, uma universidade, casas e prédios residenciais. O Estado de Israel diz que eram depósitos de mísseis do Hamas, mas nos destroços não havia qualquer vestígio de armas, apenas feridos e corpos estraçalhados. Não bastasse isso, vem utilizando bombas de fósforo branco, munição com tungstênio e com urânio empobrecido, armamentos proibidos pela ONU.

Em todas as guerras, multidões de refugiados fogem das áreas de conflito tentando salvar suas vidas. Mas a população da Faixa de Gaza não tem para onde fugir. Há 18 meses ela está confinada dentro de seu próprio território por um bloqueio militar israelense que não permite que ninguém entre ou saia, causando o assassinato em massa de palestinos, o que constitui de acordo com convenções internacionais um crime de guerra, um genocídio.

O Estado de Israel “justifica” o massacre acusando o Hamas de ter rompido um acordo de cessar-fogo em 19 de dezembro de 2008, quando o grupo passou a atirar foguetes de curto alcance contra o território israelense. Mas antes disso, Israel já havia rompido o cessar-fogo, primeiro em 4 de novembro, quando bombardeou e matou 6 palestinos em Gaza e, depois, em 17 de novembro quando outra vez bombardeou e matou mais 4 palestinos. Israel jamais cumpriu sua parte no acordo de cessar-fogo, que determinava o fim do bloqueio a Gaza. Em vez disso, intensificou o cerco impedindo a chegada de remédios e comida, tornando impossível a vida de 750 mil palestinos miseráveis cuja alimentação depende exclusivamente da ajuda humanitária.

A situação piora a cada hora! Além do banho de sangue, não há comida, água potável, energia elétrica, remédios nem médicos suficientes. Os hospitais não comportam a multidão de feridos que morrem aos montes sem possibilidade de atendimento e os necrotérios não têm espaço para amontoar as centenas de mortos. Médicos palestinos e estrangeiros em Gaza denunciam que o exército de Israel está atirando nas ambulâncias e impedindo-as de socorrer os feridos.

Diante da covardia e da tirania do Estado de Israel, milhões de vozes no mundo se unem para exigir o fim do massacre em Gaza. Nós também gritamos e nos solidarizamos com a luta e a dor do povo palestino. Não somos contra os judeus nem concordamos com o Hamas, mas nos opomos ao terrorismo de Estado e à limpeza étnica que o Estado racista de Israel realiza diante de nossos olhos. Solidarizamos-nos com os palestinos da mesma forma que nos solidarizamos com todas aquelas e todos aqueles que no mundo inteiro preferem lutar com dignidade a viver como animais e que por isso são obrigados a enfrentar a violência dos Estados e do capitalismo que cada vez mais semeiam a miséria e afundam o mundo em banhos de sangue.

Por uma Palestina livre! Contra o racismo, pela união e a paz entre os povos! Contra a barbárie do capitalismo e dos Estados! Por uma Terra sem amos!

ANTICAPITALISTAS CONTRA O MASSACRE EM GAZA

Povos do mundo contra o massacre nazisraelense em Gaza

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Parem a Guerra em Gaza!

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Hoje, em várias cidades da Europa, da África, da Ásia e da América, ocorreram manifestações de centenas de milhares de pessoas contra a limpeza étnica no Gueto de Gaza.

Em Toronto (Canadá), cinco mulheres judias ocuparam a representação diplomática do Estado nazisraelense; após a desocupação pela polícia afirmaram à imprensa que Israel não representa os judeus do mundo, como pretende. Também em Bourdeaux (França), a União Judia Francesa desfilou com faixa em que diz: "Não à política criminosa de Israel. Crimes em nosso nome, não".
Na França, em cerca de cem cidades houve manifestações de protesto contra o massacre em Gaza: em Paris, a manifestação reuniu cerca de 100 mil pessoas; em Lion, 20 mil; em Toulouse, 4 mil, em Lille, 10 mil. Também na Itália, houve manifestações massivas em Milão, Turim e outras cidades; em Florença, 5 mil manifestantes; em Veneza, cerca de 1 mil.
Em Londres, 100 mil pessoas foram às ruas, concentrando em frente à embaixada do Estado de Israel. Na Escócia, uma manifestação de centenas de pessoas jogaram sapatos na Embaixada norte-americana. Na Alemanha, cerca de 30 mil pessoas protestaram em várias cidades do país. Na Escandinávia, mais de 10 mil pessoas nas ruas de Oslo, Estocolmo e Compenhague. Na Grécia, houve manifestações também com milhares de pessoas em Atenas.

A ideologia racista do Estado de Israel

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Golda Meier, primeira-ministra de Israel: "Como vamos devolver os territórios ocupados? Não existe ninguém a quem devolver algo. Essa coisa a que chamam palestinos não existe".
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A limpeza étnica desenvolvida há anos por Israel e intensificada no atual massacre aos palestinos da faixa de Gaza é apenas o cumprimento dessa ideologia racista e genocida que se constitui no próprio fundamento do Estado de Israel. Os palestinos não existem, dixit Meier. De fato, os palestinos não mais existirão, respondem os tanques israelenses, com sua cuspideira de destruição e morte.

Palestina: estado de exceção permanente

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A criança nos braços do pai. Os mortos em sua cerimônia de sepultamento. A menina palestina, silenciosa, com olhar de não-sei-o-quê. O tanque israelense cuspindo morte e destruição.

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A tradição dos oprimidos nos ensina que o "estado de exceção"
em que vivemos é na verdade a regra geral. (Walter Benjamin)
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Parem já com o genocídio em Gaza!

Todo Estado é assassino!
Pela destruição do Estado de Israel!
Por uma Palestina multi-étnica sem Estados!
Barremos agora o genocídio em Gaza!






Solidariedade internacional à insurreição grega



Da França, da Alemanha, de Portugal, da Sérvia, da Ucrânia, da Itália, de todas as partes ... chegam mensagens aos insurrectos gregos. São imagens do retorno da história.

"Então, será possível rever uma Atenas ou uma Florença na qual ninguém será rejeitado, ampliada até os confins do mundo; e que, tendo abatido todos os seus inimigos, poderá entregar-se com júblico às verdadeiras dissensões e aos embates sem fim da vida histórica". (Guy Debord, Prefácio à 4ª edição italiana de A sociedade do espetáculo)



Dijon: "A Grécia em chamas, greve geral!!"

Amsterdã: "Combater a polícia em todo lugar. Solidariedade a Alexandros"

Belgrado: "Solidariedade à revolta grega"

Dijon: "Na Grécia, o medo mudou de lado"

Berlin: "Por Alexis"

Kiev: "Solidariedade a Alexis"

Lisboa: "A polícia mata"; "Solidariedade aos companheiros gregos"

Toulouse: "Solidariedade aos amotinados gregos"

Madrid: "Polícia assassina"

Milão: "Da Grécia à Itália, tiras assassinos"

Nova Iorque

Atenas: "Foda a polícia"


Viva a insurreição proletária na Grécia!
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"O fogo,
sobrevindo,
há de distinguir
e reunir
todas as coisas"
(Heráclito, frag. 66)
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Faísca em Atenas, incêndio em Paris:
é a próxima insurreição
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13º, 14º e 15º dias da insurreição na Grécia: a contrapelo do tempo


20/12/2008: Os protestos iniciados há duas semanas na Grécia continuam

O 15.º dia de protestos na Grécia decorreu de forma criativa, combativa e com distúrbios com as forças da ordem. A seguir notas breves dos atos acontecidos pelo menos até ao início da noite grega.

Hoje (20), sucederam diversas "pequenas" manifestações descentralizadas ao redor da cidade de Atenas. Houve atos nos bairro de Gyzi, Peristeri (onde um segundo estudante de 16 anos levou um tiro na mão), Chaidari, Petralona, Nea Smyrni, Victoria, Vyronas, e nas cidades de Tessalônica, Heraclito e Larisa.

Manifestantes atearam fogo ao prédio de uma companhia. Um grupo de jovens usando máscaras jogou uma bomba que danificou as instalações da Tirésias SA, companhia que armazena dados sobre portadores de cartões de créditos. O prédio foi incendiado e destruído. Os manifestantes gregos continuam a atacar os símbolos do Natal. Um grupo de duas centenas de manifestantes entrou em confronto com a polícia ao tentar botar abaixo a principal árvore de Natal no centro de Atenas, que já foi destruída uma vez. A polícia teve de defender aquele símbolo da fúria dos jovens com gás lacrimogêneo e cassetetes. Provocando um corre-corre e assustando os consumidores que fugiram do centro comercial da cidade.

Uma das frases mais pichadas no centro da capital negra passou a ser "Boa Crise e um Feliz Medo Novo", que ironiza a conhecida frase de "Bom Natal e Feliz Ano Novo". Durante o dia mais ações "anarco-transporte" aconteceram nas estações de metrô de Brahami e Ayios Antonios. Nos últimos dias estas ações têm sido comuns em vários pontos de Atenas, onde estações são visitadas por pequenos grupos anarquistas que sabotam as máquinas automáticas de vendas de bilhetes, e distribuem folhetos convocando para a auto-organização dos passageiros.

Neste sábado, ao menos mais quatro estações de rádio foram ocupadas ("Best", "En Lefko", "Athina 9,84" e "República 100,3"; textos contra a violência de Estado e em solidariedade com os detidos nas revoltas foram lidos. Um nutrido grupo da Ocupação da Escola Politécnica se reuniu no lugar onde Alexis foi assassinato, no bairro de Exarchia. Foram lidos vários relatórios das ações de solidariedade que estão acontecendo pelo mundo. Em Tessalônica, anarquistas ocuparam um cinema no centro da cidade e arremessaram bolos e doces no prefeito Vassilis Papageorgopoulos e em alguns vereadores presentes. O prefeito e seu staf político participavam de um evento natalino.

19/12/2008: Manifestações seguem na Grécia: 14º dia de protestos

[Nesta sexta-feira (19), novas atividades aconteceram ao redor da Grécia, marcando o 14º dia de protestos, após a morte do jovem Alexandros Grigoropulos.]

Pela manhã, centenas de estudantes das escolas de Peristeri, na região oeste de Atenas, segurando faixas onde se lia "O terrorismo deles não funcionará", marcharam pelas ruas da cidade para protestar contra o tiro na mão que um garoto de 16 anos recebeu na quarta-feira por um homem não identificado. Os estudantes também organizaram uma manifestação em Piraeus.
Durante boa parte do dia aconteceu uma grande exposição de apoio e solidariedade a céu aberto em Propylea. Mais de 30 artistas participaram e cerca de mil de pessoas prestigiaram o evento.

Algumas fotos da exposição: http://athens.indymedia.org/front.php3?lang=el&article_id=950727#951302

Cerca de 20-40 pessoas atacaram com bombas incendiárias o Instituto Francês de Atenas -instituição educacional e cultural dependente do Ministério de Relações Exteriores da França-, nesta sexta-feira. Um dos explosivos lançados chegou a atingir o interior do edifício, mas não explodiu. As bombas queimaram a fachada e quebraram janelas no pátio interno. Na fachada, picharam os seguintes dizeres: "Faíscas em Atenas. Incêndio em Paris. Insurreição se aproxima." Este ato foi, também, em solidariedade com os presos acusados de atos de solidariedade e sabotagens em ferrovias francesas, e os estudantes daquele país que estão nas ruas..

À noite, em Aigaleo, 100 anarquistas realizaram uma manifestação. Quebraram muitas janelas de instituições bancárias e câmeras de vigilância, e picharam lemas nas paredes, ainda atacaram duas delegacias locais.

Além disso, durante uma fala do primeiro ministro num evento teatral no centro de Atenas, por volta de 40 pessoas subiram no palco e desvelaram uma bandeira onde podia se ler: "Todo mundo nas ruas” e “Liberdade para todos os detidos já!". Muitas pessoas aplaudiram.
Mai uma manifestação de rua aconteceu em Lamia e uma outra em Larissa.

Em Chania, um grupo de 50 pessoas ocupou uma estação de TV local e botou no ar um vídeo de 20 minutos explicando sobre a violência policial e os acontecimentos na Grécia desde a morte do jovem Alexis pela polícia.

Em Giannena aconteceu uma exposição artística de solidariedade. Na mesma cidade, durante as primeiras horas da manhã, bancos foram atacados, um que funcionava dentro da universidade.
Também aconteceram ataques incendiários em Kavala e Aigio. Dois carros foram postos em chamas em Tessalônica e dois em Patras.

De acordo com o Sindicato dos Professores, 800 escolas no país estão ocupadas pelos estudantes. E mais de 200 faculdades. Durante a manifestação de ontem, fotógrafos registraram a polícia de choque pulverizando com gás uma senhora idosa transeunte: http://katalipsisxolistheatrou.blogspot.com/2008/12/blog-post_19.html
Fotos do concerto com milhares de pessoas que aconteceu em Tessalônica na quinta-feira (18): http://katalipsisxolistheatrou.blogspot.com/2008/12/blog-post_952.html

18/12/2008: Relato de um anarquista em Atenas no dia 18, quinta-feira

Báchi, Gurúña, Dolofóni - Maderos, Porcos, Assassinos

A concentração estava convocada para às 12h em Propilea por associações estudantis, as assembléias dos departamentos ocupados, esquerdistas e coletivos anarquistas. Mais e mais gente ia chegando, ainda que os bancos e grandes comércios ao redor da rua Panepistimiu fechassem suas portas. A manifestação começou lá pelas 14h, e era verdadeiramente enorme. Muitos diziam que era inclusive maior que as manifestações da semana passada. Não sei quantos milhares de pessoas havia... mas isso têm pouca importância.

As pessoas saíram da rua Panepistimiu, se dirigindo ao Parlamento (Praça de Sintagma) através das ruas Pesmasoglu e Stadiu. Gritos, lemas... as ruas são nossas e isto é algo que se via claramente. É algo que se notava, que depois de tantos dias saindo às ruas os jovens, os maiores... todos... ficava patente que a rua lhes pertencia. É algo que não sou capaz de explicar-lhes. Reapropriação total do espaço público, do espaço urbano.

Até chegar na Praça de Sintgma, não foi notada a presença policial. É algo indiscutível o fato de quem provoca o ódio, quem provoca os distúrbios, quem provoca... já que era uma manifestação totalmente pacifica e os únicos ataques que se realizaram era a destruição de câmaras de vigilância.

Na praça de Sintagma nos encontramos com uma multidão de policiais antidistúrbios (MAT). Ali começaram os primeiros incidentes. Um grupo de pessoas encapuzadas tentou tocar fogo na nova árvore de natal (que se encontra no mesmo local da outra anteriormente incendiada), já que a Prefeitura instalou uma outra. Inicialmente pareceu que eles tiveram sucesso já que começou a sair fumaça. Sem dúvida, entre a forte chuva da manhã (ou seja, estava molhada) e a intervenção dos MAT conseguiram apagá-la.

Um grupo de esquerdistas realizou um ataque corpo a corpo com os MAT, com bastões de madeira. Aí começaram a atirar os primeiros gases lacrimogêneos. O povo respondeu com uma onda de pedras e bombas de tinta. Os blocos dos manifestantes se reorganizaram e começaram a dirigir-se de novo a Propilea. E os policiais antidistúrbios nos seguiam pelas calçadas e os becos ao redor da Panepistimiu. Outro ataque com pedras e coquetéis molotov e de novo gases lacrimogêneos.

Entre barricadas muito bem construídas e ataques muito bem organizados, e somente a bancos e a ministérios, ao largo da rua Panepistimiu e Akadimias, nos dirigimos todos a faculdade ocupada de Direito, já que havia assembléia geral.

Dentro da faculdade...

Uma assembléia enorme, com a participação de mais de 700 pessoas. Ali estavam os "representantes" de todos os departamentos ocupados transmitindo as decisões de suas assembléias. Viam-se claramente a intenção e a vontade de seguir adiante, tanto durante as férias do natal como depois. Havia pessoas no último andar do edifício atirando pedras nos antidistúrbios, vigiando a área e avisando aos que se enfrentavam na rua. No pátio fogos, para poder proteger-nos dos gases lacrimogêneos que atiravam os antidistúrbios, inclusive dentro...
Uma verdadeira fortaleza.

Fora da faculdade...

Os enfrentamentos duraram umas 5 horas. Barricadas, pedras, coquetéis molotov. Muitíssima gente participando nos enfrentamentos com os MAT. Apoio mútuo, solidariedade...
É algo incrível ver que o povo já não tem nenhum medo (ou pelo menos, muito menos que antes) da polícia. É incrível ver jovens de 15 ou 16 anos enfrentando-se nas ruas, não cagarem-se de medo dos gases e das porras dos MAT, que os blocos dos manifestantes não se dispersam depois de um ataque por parte da polícia. A capacidade de reorganizarem-se na rua, em momentos muito tensos e sob condições que requerem reflexões muito rápidas, é algo que me chamou muito a atenção. É o que se diz na Grécia. Na rua que nasce a consciência política. Aqui é onde tudo se põe em prática. E já nem sequer seus gases podem nos parar....

Pela noite fomos ao edifício ocupado da Confederação Geral dos Trabalhadores. Um sindicato burocrata, a mão esquerda do governo. O edifício está tomado por trabalhadores libertários, anarquistas, esquerdistas. Outra assembléia com mais de 400 pessoas, onde se falaram muitos assuntos ao redor do mundo do trabalho, a precariedade e formas de intervenção nos centros de trabalho. Já é hora de que se organizem as pessoas fora dos sindicatos pelegos de maneira horizontal e auto-organizada. Na assembléia se decidiu, entre outras coisas, a realização de várias jornadas durante este fim de semana.

Dirigimos-nos a universidade ocupada de ASSOE. É a ocupação, desde meu ponto de vista, maior que existe. E a que tem muita gente participando, além disso, há um monte de grupos de trabalho desde o funcionamento do refeitório ocupado (havia jantar grátis) até os comunicados, grupos de limpeza etc.. A assembléia começou muito tarde, pelas 22h com a participação de umas 500 pessoas. Ali nos comunicaram que detiveram 5 pessoas durante os enfrentamentos da manhã, nos informaram sobre as concentrações do fim de semana e temas de gestão da ocupa. Depois de tantos dias de ocupação e de presença durante todo o dia no edifício, as pessoas estão muito cansadas e se falou muito sobre o que se tem conseguido e sob que condições vão seguir mantendo a ocupação.

Algo que merece a pena mencionar, quanto a capital Atenas, é que aparte do que ocorre no centro (já que é o único lugar que se mostra pelos meios de comunicação), há um montão de iniciativas e muito movimento nos bairros periféricos. Somente para este fim de semana há mais de 10 concentrações-manifestações em distintos bairros atenienses.

Fonte: Agência de Notícias Anarquistas - ANA

Carta aos estudantes escrita por trabalhadores atenienses




A insurreição grega, que já chega ao seu 14º dia, começa a produzir suas expressões teóricas. Como em toda insurreição dos últimos anos (Argentina, Oajaca, periferias européias ...), a crítica prática revolucionária se opõe às hierarquias, à ideologia, à mercadoria, à representação e ao Estado. E produz diálogo e comunicação prática horizontal. Vejam este belíssimo texto!
Em português, abaixo.
Em francês, <clique aqui>.



Nossa diferença de idade e o distanciamento geral nos dificultam discutir com vocês nas ruas; esta é a razão por que nós mandamos esta carta.
A maioria de nós ainda não está careca, nem nos pintou uma barriguinha. Somos parte do movimento de 1990-91. Devem ter ouvido falar dele. Naquele momento, quando havíamos ocupado nossas escolas durante 30-35 dias, os fascistas mataram um professor porque foi mais além da sua função natural (o de ser nosso guardião) e cruzou a linha que levava ao lado oposto: veio conosco, para nossa luta.
Então, até o mais brando de nós foi às ruas nos distúrbios. Sem dúvida, nós nem sequer pensamos em fazer o que tão facilmente fazem vocês hoje: atacar delegacias (ainda que cantávamos aquilo de "queimar delegacias....").
Assim francamente, vocês foram muito mais além que nós, como ocorre sempre na história. As condições são diferentes, é claro. Nos anos 90 nos compraram com a desculpa do êxito pessoal e alguns de nós nos entregamos. Agora as pessoas não acreditam neste conto de fadas. Vossos irmãos maiores nos demonstraram durante o movimento estudantil de 2006-07. Vocês agora lhes cuspam seu conto de fadas na cara.

Agora começam as boas e difíceis questões

Para começar, lhe dizemos que o que temos aprendido de vossas lutas e de nossas derrotas (porque enquanto o mundo ainda não for nosso, sempre seremos perdedores) e podem empregar o que temos aprendido como queiram:
Não fiquem sós. Chamem-nos; chamem a tanta gente como seja possível. Não sabemos como podeis fazê-lo, encontrarão a forma. Já ocuparam vossas escolas e nos dizem que a razão mais importante é que não gostam delas. Bem. Já que ocuparam, invertam o rol de prioridades. Troquem vossas ocupações com outras pessoas. Permitam que vossas escolas sejam o primeiro lugar para nossas novas relações. Sua arma mais potente é nossa divisão. Tal e como vocês não temeram atacar as delegacias porque estão unidos, não temam chamar-nos para mudar nossas vidas, todos juntos.
Não escutem nenhuma organização política (nem anarquista nem outra qualquer). Façam o que necessitem. Confiem no povo, não em esquemas e idéias abstratas. Confiem em vossas relações diretas com as pessoas. Confiem em vossos amigos: façam da vossa luta a de quanto mais gente for possível, vossa gente. Não lhes dêem ouvidos quando te disseres que vossas lutas não têm conteúdo político e que deveriam obtê-lo. Vossa luta é o conteúdo. Tão só tenham vossa luta e está em vossas mãos assegurar o seu avanço. Tão só ela pode mudar vossa vida, a vocês e as relações reais com vossos companheiros.
Não temam atuar quando enfrentarem coisas novas. Cada um de nós, agora que nos fazemos maiores, têm algo semeado em seu cérebro. Vocês também, ainda que sejam jovens. Não esqueçam a importância deste fato. Em 1991, nos enfrentamos com o cheiro de um novo mundo e, acredite-nos, o encontramos difícil. Havíamos aprendido que sempre deve haver limites. Não temam a destruição de mercadorias. Não se assustem ante os saques de lojas. O fazemos porque é nosso. Vocês (como nós no passado) foram criados para levantarem todas as manhãs visando fazer coisas que mais tarde não serão vossas. Recuperemo-las e compartamo-las. Tal e como fazemos com nossos amigos e o amor.
Pedimos desculpas para vocês por escrever esta carta tão rapidamente, mas fazemos isso ao ritmo do trabalho, em segredo para evitar que dela se intere o chefe. Somos prisioneiros no trabalho, como vocês na escola.
Agora mentiremos aos nossos chefes e deixaremos o trabalho: reunir-nos-emos com vocês em Syntagma com pedras nas mãos.


Proletários

Dura ars, sed ars...

Nota a ser divulgada, reproduzida e enviada a amigos e conhecidos, por vias eletrônica e material. Rápido! Não deixemos que a prisão de Carol se prolongue ainda mais! Clique aqui, para acessar a divulgação do manifesto em francês.


A ação de 40 jovens pichadores, no último 26 de outubro, na 28ª Bienal de São Paulo, ação que resultou na prisão de Caroline Pivetta da Mota, deve receber a mais irrestrita solidariedade de todos aqueles que são, tão-simplesmente, amigos da liberdade. Neste plano, tudo pode ser resumido nisso: trata-se da liberdade de intervenção artística, que marca há quase um século a arte moderna e de vanguarda. Daí que podemos dizer sem medo: aqueles que hoje aprisionam e processam Caroline e perseguem seus companheiros do Grupo Susto’s são inimigos da arte moderna e da liberdade artística. Os organizadores da Bienal, a Polícia e o Ministério público de São Paulo são esses inimigos e devem ser denunciados por todo canto como um só “bloco histórico” da reação anti-artística do velho stableshment cultural.

Mas algo mais fundamental se manifesta aí: a contestação à sociedade burguesa que atravessa e ultrapassa a expressão artística. Já há duas décadas a juventude proletária, individualmente ou organizada em pequenos grupos temporários, atacam o urbanismo, a destruição da cidade moderna pelo desenvolvimento capitalista, que a transforma em território da solidão, da anticomunicação generalizada, do vazio e do medo. Prédios enormes e frios, que nada mais expressam que a privatização da vida (a vida privada da própria vida), a separação dos indivíduos e o poder totalitário da mercadoria e do Estado, bem como praças que-já-não-são-mais-praças e monumentos da história oficial, têm sido objetos constantes de intervenção das pichações. Essas ações “buscam ‘melar’ a urbanização modernizadora do capitalismo e romper com o anonimato e a desindividuação próprios da ‘massificação’” (revista contra-a-corrente, nº 9, set./dez. 1999).

O sistema tem buscado assimilar e recuperar essas formas de contestação, principalmente com a sua transformação em formas nobres de “arte”. Bancos, instituições judiciárias de recuperação social de jovens, Secretarias Municipais e Estaduais de Educação, Projetos Sociais dos mais diversos governos e Galerias de Arte financiam o uso moderado de pinturas de murais por pichações “artísticas”. A pichação se torna aí uma técnica “neutra”, em campanhas de cidadania e integração cultural e moral repressiva e policial de jovens proletários às instituições do sistema. A conseqüência inevitável desse recuperador processo de “segurança social” é já o surgimento de Galerias de Arte, que trazem para o espaço colonizado dos ambientes “artísticos” comerciais a chamada “arte de rua”. É justamente este o caso da Galeria “Choque Cultural”, em Pinheiros, São Paulo, também atacada por pichadores em setembro deste ano.

O que torna insuportáveis as ações de Carol e de seus companheiros é justamente a recusa a essa integração, recusa particular que expressa – num intolerável mau exemplo – a recusa de milhares de outros jovens nos bairros proletários, que nas periferias brasileiras, não menos do que nas quentes banlieues francesas, dizem conscientemente não! à docilidade policial das instituições que buscam integrá-los à obediência. Insuportáveis ainda mais porque tais ações levam a recusa aos territórios aos quais a própria política recuperadora do sistema sentiu-se bem à vontade para, sob a forma morta de “arte”, levar a negação proletária: as Galerias e Bienais. O escândalo se torna aí mais terrível, pois desautoriza publicamente ex museum, no próprio terreno em que se ensaia a recuperação, a ousadia do aparato cultural do sistema em apropriar-se seja das formas estéticas de contestação, seja da arte moderna, cujo desenvolvimento, há quase cem anos, é inseparável da contestação desse mesmo aparato.

O aparato cultural do sistema não continua a arte moderna, mas a amordaça, recuperando-a. Já Carol e seus amigos, que não reivindicam fazer arte, mas contestá-la, justamente desse modo são herdeiros da grande arte moderna e de vanguarda do século 20... herdeiros legítimos, e precisamente porque se recusam a apropriar-se dela.

Liberdade para Carol!

Fim das Bienais e Galerias!

Pela liquidação do aparato cultural do sistema!
Amig@s da próxima insurreição


A mercadoria é racista, a mercadoria é a morte



No ano passado, um casal de negros de classe média, professores universitários em Fortaleza, foram comprar um computador no Extra Montese. A vendedora, desconfiada de que o cartão de crédito que os negros portavam não fosse deles, chamou de imediato a polícia, enquanto os compradores aguardavam a suposta consulta telefônica à empresa concedente do cartão. Agora, conforme notícia abaixo, que circula na internet através de e-mails de amigos, um jovem proletário negro foi assassinado em São Paulo, numa das Casas Bahia, quando, ao lado da esposa, tinha ido pagar uma prestação do colchão. Negro, mal vestido (estava de macacão de trabalho), o camarada era por tudo e tudo suspeito. O que essas duas histórias nos demonstram muito bem é que a inclusão dos negros na esfera universal dos direitos, a começar pelo mais sagrado direito da sociedade capitalista, que é o direito à propriedade e, portanto, a comprar e vender, é sempre uma inclusão subalterna. A mercadoria não emancipa, apenas repõe a subalternidade. A idéia de que a inclusão no mercado de trabalho, na escola e na Universidade, no mercado consumidor, constitua a "igualdade" é uma ilusão. Que o espetáculo tenha necessidade de vedetes de cor negra é apenas para que a quase totalidade de negras e negros continuem submetidas/os ao racismo, que surge na história pela primeira vez com o capitalismo (tendo sido mesmo uma das condições históricas de sua acumulação primitiva, como bem o descreveu Marx). A nota abaixo é da Casa do Zezinho, uma ONG da periferia de São Paulo, que trabalha com crianças proletárias e na qual o jovem recém assassinado morou durante alguns anos.


Nota de repúdio e indignação


A Casa do Zezinho está de luto. A ONG Casa do Zezinho mostra seu profundo repúdio e indignação. Um dos seus filhos queridos, o jovem Alberto Milfont Jr. (23), foi barbaramente assassinado dentro das Casas Bahia na Estrada de Itapecerica por um segurança terceirizado, que trabalha nessa instituição, na segunda feira por volta das 16 horas. O segurança, em sua defesa, alega que agiu assim porque simplesmente o jovem estava mal vestido.


O jovem Alberto, mal vestido, morre com a nota fiscal, com comprovante de compra nas mãos. Enquanto aguardava dentro da loja, "roupa de trabalhador", sua esposa Darilene (22) voltava do caixa aonde fora pagar a prestação da compra de um colchão. Foi abordado pelo assassino, terno preto. Depois de um bate boca ligeiro o segurança saca da arma e atira à queima roupa. O jovem tomba sem vida.


Suas últimas palavras: "Sou cliente, não sou ladrão!". A partir daí se calou. Calou da mesma forma como estamos calados, sufocados há 400 anos. Que grande equívoco este país!


Mal vestido, roupa de trabalho, é um sinal verde para o braço armado da sociedade, o assassino pago para atirar. Alberto deixa esposa e um filho de 5 meses. Alberto deixa morta a remota esperança de milhares de jovens brasileiros. Estudar pra quê? Trabalhar pra quê? Ser honesto pra quê? Brasileiros alfabetizados, respondam honestamente essa pergunta!


O menino brincalhão, comprido e de pernas finas entrou para a Casa do Zezinho aos 10 anos. Sua turma do Parque Santo Antônio já estava todinha ali. "Vai ser muito legal, ali vamos nos divertir para valer". O jovem deixa excelentes recordações em toda nossa comunidade, onde permaneceu como um membro muito querido até 2003. Estava de casamento marcado com a jovem Darilene, com quem tinha um filho de apenas 5 meses. Suspeita e pobreza sempre juntas na nossa história. Nenhum (a) jovem "mal vestido" (leia-se moreno, pardo) da periferia ousa sequer pisar num shopping de grife da cidade sem levantar as mais alarmantes suspeitas. Nenhuma placa, nenhum sinal explcita essa indesejabilidade, como faziam com os negros os norte-americanos. Diferentemente dos americanos, aqui o jovem da periferia já traz gravada na carne, na alma, essa interjeição.


Nenhuma revolta, nenhuma vingança organizada. Nada que a sociedade deva se preocupar. Apenas o destempero de um segurança idiotizado, uma peça para reposição. No Cemitério São Luiz o murmúrio surdo da mãe e da jovem esposa.


Dentes cravados, os jovens cabisbaixos que acompanham o enterro trazem o sangue nos olhos. - "O mano Alberto subiu!". Com muita raiva seguimos com eles, solidários, para tentar preservar essa auto estimatão covardemente destruída desde o seu nascimento nas favelas.


A vitória da morte exercida com eficiência certeira desde sempre no país pelo braço armado contratado pela sociedade dominante e pelos seus comparsas que dominam toda a estrutura de poder do estado.


Pras Casas Bahia deixamos como lembrança o carnê saldado com a honra e a dignidade de um jovem trabalhador. Adeus mano Alberto!



Arte e sociedade burguesa em Hegel

Abaixo, publico os dois primeiros parágrafos do meu Prefácio ao livro do amigo Antonio Vieira, resultado de sua brilhante dissertação de mestrado em filosofia na USP. O tema é a relação problemática da arte com a sociedade burguesa moderna, tal como ela se encontra tematizada pelo filósofo alemão. O título do livro é Poesia e prosa: arte e filosofia na Estética de Hegel (Campinas, SP: Editora Pontes/Fapesp, 2008, 190 p. R$ 30,00).

Antonio Vieira nos oferece nas duas centenas de páginas que nos esperam uma rigorosa e, sob certo ponto de vista, retificadora apresentação das reflexões estéticas de Hegel. Seu objeto é a experiência moderna da arte, pela qual esta, justamente ao ser reconhecida, no interior do idealismo alemão, como atividade autônoma frente a outras atividades humanas, é, contudo, pensada por Hegel como forma inferior, e de resto inadequada para o nosso tempo, de expressão do absoluto. Se quisermos, trata-se da velha e propalada questão hegeliana da ‘morte’ da arte. Mas, dito assim, teríamos apenas uma expressão coagulada, o que, numa filosofia rica em mediações como a de Hegel, não tem a menor força; e o texto de Vieira, apesar de claro, límpido, não foge dessas mediações, mas, ao contrário, nos propõe tantas outras, justamente porque não nos quer levados a achar que haja, na reflexão hegeliana sobre o estatuto moderno da arte, ausência de mediações. A exposição que este livro nos propõe, em verdade, alarga – com relação às expressamente presentes na Estética – as mediações que são levadas em conta nas considerações sobre a concepção hegeliana da arte, e isto porque ele faz seu o ponto de partida do próprio Hegel, ponto de partida este que, segundo a economia interna do sistema, não sendo o objeto da ciência filosófica da Estética, encontra-se mais apropriadamente apresentado e mais bem desenvolvido em outras ciências filosóficas do sistema, tais como naquelas expostas pelos Princípios da filosofia do direito, pelas Lições de história da filosofia, ou ainda, pela terceira parte da Enciclopédia das ciências filosóficas, que trata da filosofia do espírito.

Que, sob a perspectiva da história das idéias, o ponto de partida de Hegel seja, não o romantismo, como propõe a tese tantas vezes retomadas no último século, mas sim a Ilustração alemã, fortemente influenciada pela recepção por Lessing do pensamento de Spinoza e cujo termo mais desenvolvido encontra-se justamente no esforço interno tanto ao classicismo de Schiller e Goethe quanto ao próprio idealismo alemão pela superação da filosofia transcendental, tal como esta se encontra articulada em Kant, não basta para explicar – senão que apenas aumenta o que deve ser explicado – o desenvolvimento do pensamento de Hegel, notadamente se levarmos em conta a reivindicação deste filósofo de que a filosofia, tarefa que a sua filosofia teria tratado de realizar, deve expressar a autoconsciência do tempo presente, sendo que, para o nosso presente, ao fazê-lo, a filosofia oferece a reconciliação deste tempo consigo mesmo. A suspeita de que neste projeto filosófico está o elemento fundamental para a compreensão da totalidade do pensamento hegeliano é o que move o autor deste livro.

Comunicação prioritária

"A comunicação não existe jamais em outro lugar que não seja na ação comum. E os mais surpreendentes exageros da incompreensão estão, assim, ligados ao excesso de não-intervenção"
Considero esse texto um dos mais importantes da reflexão situacionista. Publicado na IS nº 7 (abril de 1962, p. 20-24), Comunicação prioritária retoma (ao lado de All the King's men e O sentido do deperecimento da arte) a discussão da vanguarda histórica sobre a linguagem, encaminhando-a no sentido do gravíssimo e central problema dos nossos tempos: o da comunicação prática. É por essa via que os situacionistas buscam retomar, nas condições do capitalismo espetacular, as ligações históricas da vanguarda do entreguerras com as experiências dialogais dos conselhos operários no primeiro quarto do século 20. Nesse texto, eles retomam também a oposição entre informação e comunicação, que motivou alguns textos de Walter Benjamin. E, antes dos "filósofos de 68" (aqueles que só se tornaram tais depois de 68, surfando em seu "sucesso" acadêmico-midiático), preparam já o anúncio - que farão depois em All the King's men - da necessidade de redes, de soviets de comunicação prática federados: "Um dos problemas revolucionários consiste em federar esses tipos de soviets, de conselhos da comunicação, a fim de inaugurar em todo lugar uma comunicação direta que não tenha mais que recorrer à rede da comunicação do adversário (isto é, à linguagem do poder) e possa, assim, transformar o mundo segundo seu desejo".



A questão do poder é tão bem escondida, nas teorias sociológicas e culturais, que os especialistas podem derramar tinta em milhares de páginas sobre a comunicação ou os meios de comunicação de massa na sociedade moderna, sem jamais observar que a comunicação da qual eles falam é de mão única, os consumidores de comunicação não tendo nada a responder. Na pretensa comunicação, há uma rigorosa divisão de tarefas, que recorta finalmente a divisão mais geral entre organizadores e consumidores do tempo na sociedade industrial (o qual integra e enforma o conjunto do trabalho e dos lazeres). Aquele que não é incomodado pela tirania exercida sobre sua vida neste nível, não compreende nada da sociedade atual; e se encontra, portanto, perfeitamente qualificado a pintar, da sociedade atual, todos os afrescos sociológicos. Todos aqueles que se inquietam ou se maravilham diante desta cultura de massa que, através dos mass-media, unificados planetariamente, cultiva as massas e, ao mesmo tempo, “massifica” a “alta cultura”, esquecem somente que a cultura, mesmo alta, está agora enterrada nos museus, inclusive suas manifestações de revolta e de autodestruição. E que as massas – das quais, finalmente, todos somos – são mantidas fora da vida (da participação da vida), fora da ação livre: em subsistência, no modo do espetáculo. A lei atual é que todo mundo consuma a maior quantidade possível de nada; inclusive mesmo o nada respeitável da velha cultura perfeitamente separada de sua significação original (o cretinismo progressista se enternecerá sempre ao ver o teatro de Racine televisado, ou os Yakoutes lerem Balzac: justamente, ele não consideraria outro progresso humano).


A noção reveladora do bombardeamento de informações deve ser entendida em seu sentido mais largo. Hoje, a população é submetida permanentemente a um bombardeio de imbecilidades que não é de modo algum dependente dos mass-media. E, sobretudo, nada seria mais falso, mais digno da esquerda antediluviana do que imaginar esses mass-media em concorrência com outras esferas da vida social moderna na quais os problemas reais das pessoas seriam seriamente postos. A Universidade, as Igrejas, as convenções da política tradicional ou a arquitetura emitem também fortemente a xiado de incoerentes trivialidades que tenderá, anárquica mas imperativamente, a modelar todas as atitudes da vida cotidiana (como vestir-se, quem encontrar, como contentar-se). Qualquer um dos sociólogos da “comunicação”, para quem a idéia banal de efeito infalível será a de opor a alienação do empregado dos mass-media à satisfação do artista, este podendo se identificar à sua obra e se justificar por ela, não fará nada a não ser expor sempre sua incapacidade eufórica de conceber a alienação artística, ela mesma.


A teoria da informação ignora, logo de cara, o principal poder da linguagem, que é o de se combater e de se ultrapassar, em seu nível poético. Uma escrita que tende ao vazio, à neutralidade perfeita do conteúdo e da forma, pode apenas se desenvolver em função de uma experimentação matemática (como a “literatura potencial” que é o ponto final da longa página branca escrita por Queneau). Apesar das soberbas hipóteses de uma “poética informacional” (Abraham Moles), a enternecedora segurança de seus contra-sensos sobre Schwitters ou Tzara, os técnicos da linguagem não compreenderão jamais senão a linguagem da técnica. Eles não sabem o que julga tudo isso.


Considerada em toda sua riqueza, a propósito do conjunto da práxis humana e não a propósito da aceleração das operações de contas correntes postais pelo uso dos cartões perfurados, a comunicação não existe jamais em outro lugar que não seja na ação comum. E os mais surpreendentes exageros da incompreensão estão, assim, ligados ao excesso de não-intervenção. Nenhum exemplo poderia ser mais claro que a longa e lamentável história da esquerda francesa diante da insurreição popular na Argélia. A prova de morte da antiga política, na França, foi dada não somente pela abstenção da quase-totalidade dos trabalhadores, mas mais ainda, sem dúvida, pela tolice política da minoria resolvida a agir: assim, as ilusões de militantes de extrema-esquerda acerca da “frente popular” podem ser qualificadas de ilusões ao décimo grau, pois, em primeiro lugar, esta fórmula era rigorosamente impraticável neste período, mas, também, ela tinha largamente provado desde 1936 que era uma arma contra-revolucionária particularmente segura. Se as mistificações das velhas organizações políticas revelaram aqui seu desmoronamento, nenhuma política nova surgiu. Com efeito, o problema argelino aparecia como um dos arcaísmos franceses, na medida em que a principal tendência na França é a ascensão ao standing do capitalismo moderno. Os fenômenos ainda inoficiais, “selvagens”, de decepção e de recusa que acompanham este desenvolvimento não se consideravam em nada ligados à luta dos argelinos subdesenvolvidos. Para quem não distingue no futuro a realidade de uma contestação radical comum, a comunidade de interesses aparentemente tão diferentes hoje se funda somente no imperativo das lembranças (o que fazia – e, mais freqüentemente, o que deveria fazer – o antigo movimento operário para apoiar os explorados das colônias). De modo que alguns reflexos tornados eles mesmos arcaicos, portanto, abstratos, constituíam a única solidariedade considerada: era aguardar que esta eterna esquerda francesa mitológica, PC-PSU-SFIO, e o GPRA se comportassem (consideradas suas diversas “inabilidades” ou “traições”) como duas seções da IIIª Internacional. Tudo o que sobreveio desde 1920 parece, no entanto, mostrar que uma crítica fundamental destas soluções é inevitável em todo lugar; e diretamente posta para os argelinos, forçosamente, em razão sua atual luta armada. A solidariedade internacionalista, se não é degradada em moralismo de cristãos de esquerda, apenas pode ser uma solidariedade entre os revolucionários dos dois países. Isto supõe evidentemente que na França eles existam; e, na Argélia, que se distingam seus interesses no futuro próximo, quando a atual frente nacional estará diante da escolha sobre a natureza de seu poder.


As pessoas que procuravam levar adiante uma ação de vanguarda na França, nesse período, foram divididas entre, de um lado, seu medo de se separarem totalmente das antigas comunidades políticas (embora soubessem de seu grau de glaciação avançada) e, em todo caso, de sua linguagem; e, de outro lado, um certo desprezo pela emoção real de alguns setores – os estudantes, por exemplo – interessados na luta contra o extremismo colonialista, por causa da complacência que ali se manifestava com relação a uma antologia dos arcaísmos políticos (unidade de ação sem exclusividade contra o fascismo etc.).


Nenhum grupo soube utilizar essa ocasião, de uma maneira exemplar, ligando o programa máximo da revolta virtual da sociedade capitalista a um programa máximo da revolta atual dos colonizados; o que se explica, naturalmente, pela fraqueza de tais grupos, mas esta fraqueza mesma não deve jamais ser considerada como uma desculpa: bem ao contrário, como um defeito de funcionamento e de rigor. Não é concebível que uma organização que represente a contestação vivida pelas pessoas e que sabe lhes falar dela, fique frágil; ainda que ela fosse duramente reprimida.


A separação completa dos trabalhadores da França e da Argélia, da qual é preciso compreender que não estava principalmente no espaço, mas no tempo, levou a este delírio da informação, mesmo “de esquerda”, que fez com que no dia seguinte ao 8 de fevereiro, em que a polícia matou 8 manifestantes franceses, os jornais falassem dos choques mais sangrentos constatados em Paris desde 1934, sem mais pensar que, menos de quatro meses antes, os manifestantes argelinos de 18 de outubro tinham sido ali massacrados às dezenas. Ou que permitiu a um “Comitê antifascista do bairro Saint-German-des-Près”, em março, escrever num cartaz: “O povo francês e o povo argelino impuseram a negociação...”, sem se incomodar pelo ridículo desta enumeração destas duas forças, e nesta ordem.


Num momento em que a realidade da comunicação está tão profundamente apodrecida, não é surpreendente que se desenvolva em sociologia o estudo mineralógico das comunicações petrificadas. Nem que, na arte, a canalha neodadaísta redescubra a importância do movimento Dadá como positividade formal a explorar ainda, após tantas outras correntes modernistas que, dele, já adotaram o que podiam desde os anos 20. Esforça-se por fazer esquecer o quanto o dadaísmo autêntico foi aquele da Alemanha e até que ponto ele esteve ligado à ascensão da revolução alemã após o armistício de 1918. A necessidade de uma tal ligação não mudou para quem traz hoje uma posição cultural nova. Simplesmente, é preciso descobrir este novo ao mesmo tempo na arte e na política.


A simples anticomunicação emprestada hoje do dadaísmo, pelos mais reacionários defensores das mentiras estabelecidas, é sem valor numa época em que a urgência é a de criar, no nível mais simples como no mais complexo da prática, uma nova comunicação. A continuição mais digna do dadaísmo, sua legítima sucessão, é preciso reconhecê-la no Congo do verão de 1960. A revolta espontânea de um povo mantido, mais do que em qualquer lugar, na infância, no momento em que cambaleou a racionalidade, ali mais estrangeira do que em qualquer lugar, de sua exploração, soube desviar [détourner] imediatamente a linguagem exterior dos senhores para poesia e modo de ação. Convém fazer, respeitosamente, o estudo da expressão dos congoleses nesse período, para aí reconhecer a grandeza e a eficácia – cf. o papel do poeta [Patrice] Lumumba – da única comunicação possível, que, em todos os casos, acompanha a intervenção nos acontecimentos, a transformação do mundo.


Ainda que o público seja fortemente incitado a pensar o contrário, e não somente pelos mass-media – a coerência da ação dos congoleses, enquanto não se venceu sua vanguarda, e o excelente uso que eles fizeram dos raros meios que detinham contrastam exatamente com a incoerência fundamental da organização social de todos os países desenvolvidos e sua perigosa incapacidade de encontrar um uso aceitável para seus poderes técnicos. Sartre, que é tão representativo de sua geração perdida, no sentido de que conseguiu ser, por si só, ingênuo em face de todas as mistificações entre as quais seus contemporâneos faziam sua escolha, decide repentinamente agora, em uma nota do número 2 de Méditations, que não se pode falar de uma linguagem artística dissolvida que correspondesse a um tempo de dissolução, pois “a época constrói mais do que destrói”. A balança do quitandeiro pende para o mais pesado, mas é a partir de uma confusão entre construir e produzir. Sartre deve observar que há hoje sobre os mares uma mais forte tonelagem de navios que antes da guerra, apesar dos torpedeamentos; que há mais imóveis e mais automóveis, apesar dos incêndios e das colisões. Há também mais livros, já que Sartre viveu. E, no entanto, as razões de viver de uma sociedade se destruiram. As variantes que, das razões de viver, apresentavam uma mudança factícia duram somente o tempo de um chefe de polícia, e depois reencontram a dissolução geral do antigo mundo. O único trabalho útil está ainda por ser feito: reconstruir a sociedade e a vida sobre outras bases. As diversas neofilosofias das pessoas que reinaram durante tanto tempo sobre o deserto do pensamento supostamente moderno e progressista não conheciam estas bases. Seus grandes homens não irão nem mesmo ao museu, porque este será um período muito vazio para os museus. Eles se assemelhavam todos, eles eram os mesmos produtos da imensa derrota do movimento de emancipação do homem, no primeiro terço deste século. Eles aceitavam esta derrota, é o que os define exaustivamente. E até o extremo, os especialistas do erro defenderão sua especialização. Mas esses dinossauros da pseudo-explicação, agora que o clima muda, não terão mais nada a pastar. O sono da razão dialética engendrava os monstros.


Todas as idéias unilaterais sobre a comunicação eram evidentemente as idéias da comunicação unilateral. Elas correspondiam à visão de mundo e aos interesses da sociologia, da arte antiga ou dos estados-maiores da direção política. Eis aí o que vai mudar. Nós conhecemos “a incompatibilidade de nosso programa, enquanto expressão, com os meios de expressão e de recepção disponíveis” (Kotányi). Trata-se de ver ao mesmo tempo o que pode servir à comunicação e a que pode servir a comunicação. As formas de comunicação existentes e sua crise presente se compreendem e se justificam somente pela perspectiva de sua ultrapassagem. Não é preciso ter um tal respeito pela arte e pela escrita a ponto de querer abandoná-las totalmente. E não é preciso ter um tal desprezo pela história da arte ou da filosofia modernas a ponto de querer continuá-las como se nada fosse. Nosso julgamento é desiludido porque é histórico. Todo uso, para nós, dos modos de comunicação permitidos, deve, portanto, ser e não ser a recusa desta comunicação: uma comunicação que contém sua própria recusa; uma recusa que contém a comunicação, isto é, a transformação [renversement] dessa recusa em projeto positivo. Tudo isso deve levar a algum lugar. A comunicação vai agora conter sua própria crítica.




Tradução: Emiliano Aquino